Do interior de JC ao Projeto Plantar Juntos

Do interior de JC ao Projeto Plantar Juntos em Santa Cruz: O Projeto Plantar Juntos nasceu da necessidade de reconectar pessoas à terra, ao alimento e ao tempo das coisas. Em Santa Cruz do Sul, a iniciativa de agricultura urbana vem aproximando famílias do cultivo consciente e transformando o consumo em experiência. Mais do que produzir alimentos, o Projeto Plantar Juntos propõe uma nova forma de olhar para aquilo que chega até a mesa: com mais presença, cuidado e conexão com a natureza.
A castilhense Camila Crauss encontrou exatamente isso no Projeto Plantar Juntos, uma horta urbana em Santa Cruz do Sul que vem transformando o consumo em experiência, aproximando famílias da produção de alimentos e resgatando uma relação mais consciente com a natureza. Mais do que uma proposta agroecológica, o Projeto Plantar Juntos carrega propósito, memória afetiva e pertencimento.
E talvez seja justamente aí que mora sua força: na simplicidade de voltar a colocar as mãos na terra. Nesta entrevista para a Mídia Raiz, Camila fala sobre consumo consciente, agricultura urbana, comunidade do Projeto Plantar Juntos, infância no interior de Júlio de Castilhos e sobre como pequenas escolhas podem transformar a forma como enxergamos o alimento, o cuidado e a própria vida.
Como tu conheceu o Projeto Plantar Juntos e o que mais te tocou na proposta desde o início?
CAMILA: A Plantar Juntos é uma horta urbana que iniciou suas operações em 2024. O espaço foi adquirido pela Ana Letícia Zappe e, em setembro de 2025, eu me tornei sócia. Hoje, eu e a Ana somos responsáveis por toda a operação do negócio. Somos apaixonadas por este lugar e, desde o início, foi o propósito o que mais nos motivou a continuar. Voltar para a terra, literalmente com as mãos na terra, cultivar o alimento e oferecer essa vivência foi o que nos uniu nesse propósito. Mesmo não sendo um projeto originalmente inaugurado por nós duas, hoje sentimos que ele carrega a nossa essência.
O projeto fala sobre agroecologia, nutrição profunda, cultivo consciente e relação com a terra. Na prática, como tu percebe que ele transforma a forma como as pessoas olham para o alimento?
CAMILA: Sim, a agroecologia é um dos nossos pilares. Por respeito ao solo, produzimos alimentos diversos, sem monocultura e sem agrotóxicos, devolvendo à terra a capacidade de continuar produzindo alimentos saudáveis e nutritivos. Percebo a nossa horta como um espaço para viver a produção de alimentos, respeitar o tempo de cada coisa, a sazonalidade e receber o que a terra tem para oferecer em cada momento. Uma das coisas que eu mais gosto da horta é a sensação de desacelerar. Estar nesse ambiente transforma o valor percebido do alimento: ele deixa de ser apenas um produto e passa a representar todo o processo, o cuidado e a relação envolvidos em sua produção.
Uma das frentes do Projeto Plantar Juntos é o plano Colher Juntos, que permite às pessoas circularem pela horta, colherem e terem contato direto com o alimento. Que diferença tu percebe quando alguém deixa de apenas comprar e passa a vivenciar a colheita?
CAMILA: Este é realmente um passo à frente. Oferecemos cestas prontas com alimentos sazonais e agroecológicos, o que é maravilhoso para quem busca praticidade. Mas, para quem deseja viver a experiência de forma mais profunda, o plano Colher Juntos completa o ciclo. Entrar na horta, observar o que está disponível e pronto para consumo, perceber o que ainda precisa de mais tempo de maturação e saber que é possível voltar na semana seguinte para colher, além de ter a oportunidade de plantar as mudas disponíveis, tudo isso transforma a relação com o alimento.
Colocar as mãos na terra e conviver com outras pessoas que também ocupam esse espaço é criar uma comunidade de consumo consciente. Participando de todo esse processo, compreendendo o tempo e o cuidado envolvidos, o alimento passa a ter um valor diferente. Não é apenas escolher a fruta mais bonita da gôndola, mas reconhecer: fui eu quem plantou, cuidou e colheu antes de levar para a mesa. É essa experiência que o Projeto Plantar Juntos deseja oferecer.
Tu é castilhense e hoje vive em Santa Cruz do Sul. De alguma forma, a tua origem em Júlio de Castilhos, uma cidade muito ligada ao interior, à terra e ao agro, influencia o teu olhar sobre um projeto como o Projeto Plantar Juntos?
CAMILA: Para te falar a verdade, a minha origem castilhense e as vivências da infância, colhendo e comendo frutas direto do pé, foram os motivos que me fizeram acreditar neste projeto desde o primeiro minuto. Saber a diferença que essas experiências fizeram no meu desenvolvimento e na minha relação com a natureza é o alicerce de tudo isso. A Ana, minha sócia, também tem uma relação semelhante com a terra, pois cresceu no interior de Venâncio Aires. E, talvez o mais importante, poder oferecer tudo isso para a minha filha de 3 anos, assim como para todas as famílias que fazem parte da comunidade Projeto Plantar Juntos, não tem preço. É como se eu estivesse levando um pedacinho da minha origem castilhense para todos aqueles que decidiram se juntar a nós.
Que mensagem tu deixaria para quem ainda consome no automático e nunca parou para pensar de onde vem o alimento que coloca na mesa?
CAMILA: É uma pergunta difícil de responder, porque essa mensagem também se aplica a mim e à minha família. O alimento pode exercer muitos papéis na nossa vida. Ele não serve apenas para nos dar energia, mas também está presente quando comemoramos vitórias, acolhemos pessoas ou, muitas vezes, tentamos lidar com emoções. Criar uma relação saudável e profunda com o alimento é uma tarefa lenta e silenciosa. E, quando compreendemos o valor desse alimento — quanto cuidado e quanto tempo foram necessários para produzir, desde a etapa da semente até chegar à mesa — esse processo se torna mais leve e consciente. Não precisa ser perfeito e nem acontecer o tempo todo. Mas, uma escolha de cada vez, podemos transformar nossa relação com a comida: decidir o que fazer com o alimento disponível, usar aquele temperinho cheiroso que exigiu cuidado e tempo para crescer, valorizar o preparo e a origem. São pequenas escolhas que, somadas, acabam criando uma nova forma de se alimentar e de fazer escolhas mais saudáveis e conscientes.
Agradeço imensamente à Camila pelo tempo dedicado à nossa entrevista. No fim, talvez o Projeto Plantar Juntos fale sobre algo que vai muito além da agroecologia. Fale sobre memória. Sobre pertencimento. Sobre reaprender a respeitar o tempo das coisas em um mundo que nos acostumou à pressa e ao automático.
Ao ler as respostas da castilhense Camila Crauss, fica evidente que a relação com a terra não nasce apenas da produção de alimentos, mas também das experiências que carregamos da infância, das mãos sujas de terra, das frutas colhidas do pé e da convivência com o interior.
Em tempos em que consumir virou um ato rápido e impessoal, iniciativas como o Projeto Plantar Juntos lembram que existe vida, cuidado, tempo e história por trás de cada alimento que chega até a mesa. E talvez seja justamente essa reconexão silenciosa entre pessoas, natureza e comunidade que tanta gente esteja procurando sem perceber.
PROJETO PLANTAR JUNTOS PROJETO PLANTAR JUNTOS PROJETO PLANTAR JUNTOS




eu amei fazer essa entrevista!