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O poder de transformar linhas em renda, autoestima e liberdade

Quando a coragem encontra as agulhas: a história da artesã Adriana Moroni.

Existem pessoas que transformam linhas em peças bonitas. E existem aquelas que conseguem transformar linhas em histórias. A artesã Adriana Moroni faz parte desse segundo grupo. Moradora de Júlio de Castilhos, mãe, avó, amiga, trabalhadora da educação há mais de duas décadas e apaixonada pela vida, ela carrega nas mãos um talento que atravessa gerações. Foi ainda na adolescência que aprendeu tricô com a mãe. O crochê veio pouco depois, ensinado pela avó materna, às vésperas do casamento, quando preparava o próprio enxoval. Mas como acontece com muitas mulheres, a vida pediu outras prioridades. Vieram o casamento, a maternidade, o trabalho, a rotina e os compromissos. As agulhas ficaram guardadas por muitos anos dentro de um baú, junto com linhas, novelos e memórias. Até que a pandemia mudou tudo. Foi dentro de casa, em meio à pausa inesperada que atingiu tantas famílias, que Adriana reencontrou aquele velho baú. Entre linhas esquecidas e agulhas guardadas pelo tempo, nasceu uma nova fase da sua história.

A primeira peça foi uma gola feita para uso próprio. Depois de publicar uma foto nas redes sociais, vieram as perguntas, os elogios e as primeiras encomendas. O que começou como um reencontro afetivo com um talento antigo acabou se transformando em um negócio construído com dedicação, aprendizado e amor.

Mas esta não é apenas uma história sobre artesanato.


É também uma história sobre coragem. Recentemente, Adriana chamou a atenção nas redes sociais ao refletir sobre os julgamentos que muitas empreendedoras enfrentam quando decidem aparecer, divulgar seus produtos e ocupar espaço. Um tema que dialoga diretamente com inúmeras mulheres que carregam talentos, sonhos e projetos, mas ainda sentem medo da opinião alheia. Nesta entrevista para a Mídia Raiz, Adriana fala sobre trabalho, família, empreendedorismo, superação e sobre a importância de acreditar em si mesma mesmo quando o mundo insiste em duvidar.

Porque, às vezes, tudo o que uma mulher precisa para mudar a própria história é pegar novamente as agulhas que um dia precisou guardar. Antes de falarmos sobre o teu trabalho, conta um pouco sobre ti. Quem é a mulher por trás das agulhas, dos novelos e das peças que tantas pessoas admiram?

Me chamo Adriana Moroni, tenho 55 anos, sou uma mulher apaixonada pela vida. Mesmo ela nem sempre sendo aquilo que esperamos, aprendi a enxergar Deus em tudo e, por isso, me encanto com os detalhes. Sou mãe, avó, irmã, tia, amiga e alguém que acredita muito no valor das coisas simples.

Como o tricô entrou na tua vida? Tu lembras da primeira peça que fizeste ou do momento em que percebeste que aquilo poderia se tornar mais do que um passatempo?

Aprendi tricô com a minha mãe ainda na adolescência. Naquela época, as meninas precisavam saber um pouco de tudo. O crochê foi minha avó materna quem me ensinou, um mês antes de eu me casar. Corri para fazer os barrados das toalhas e dos panos de prato do meu enxoval. Também fiz roupas para o meu filho quando ele ainda estava na barriga. Mas depois a vida aconteceu. Vieram os compromissos de esposa, mãe, filha e trabalhadora. Há 21 anos fui chamada para um concurso público e passei a trabalhar em uma escola, onde continuo até hoje. As linhas e as agulhas ficaram guardadas e viraram apenas um hobby, algo que eu fazia quando sobrava tempo — o que quase nunca acontecia. Até que veio a pandemia. Com as escolas fechadas e todos em casa, encontrei um baú cheio de linhas e agulhas. Resolvi mexer nele e fiz uma gola para mim. Publiquei uma foto no Facebook e várias pessoas começaram a perguntar onde eu tinha comprado e quem tinha feito.

Quando respondi que tinha sido eu mesma, senti um orgulho enorme. Logo surgiram encomendas e ali vendi minha primeira peça depois de muitos anos sem pegar nas agulhas. Desde então não parei mais. Fui estudando, aprendendo, me especializando e hoje faço exatamente aquilo que amo.

O artesanato carrega algo muito especial: cada peça é única e feita à mão. O que tu acredita que as pessoas recebem quando levam para casa uma criação tua?


Eu acredito que levam muito mais do que uma peça. Levam alegria, aconchego, carinho, conforto. Cada trabalho é feito com tempo, dedicação e amor. Quando alguém escolhe uma peça feita por mim, sinto que estou entregando um abraço em forma de artesanato, algo que vai fazer parte da casa e da vida daquela pessoa.


Empreender nunca é apenas sobre vender um produto. Quais foram os maiores desafios e aprendizados que encontraste ao transformar o teu talento em trabalho?


O maior desafio continua sendo o julgamento das pessoas. Muitas vezes elas falam sobre aquilo que não conhecem e acabam julgando sem perceber o quanto isso pode machucar. Mas foi justamente aí que encontrei um dos meus maiores aprendizados.

Eu aprendi que ninguém segura uma mulher quando ela sabe o que quer, gosta do que faz e trabalha com amor. Eu amo o que faço. Se pudesse, passaria dias e dias tecendo, criando peças, levando mais aconchego, beleza e carinho para a vida das pessoas.


Recentemente, tu trouxeste uma reflexão importante sobre a exposição nas redes sociais. Muitas mulheres empreendedoras ainda sentem receio de mostrar o próprio trabalho por medo de julgamentos. O que tu gostaria de dizer para aquelas que têm um sonho, um talento ou um negócio, mas ainda não encontraram coragem para aparecer e ocupar o seu espaço?


Eu diria para elas fecharem os olhos para o julgamento e os ouvidos para as críticas.

O mundo é muito grande. Apareçam. Mostrem o que vocês fazem. Postem. ivulguem. Acreditem no trabalho de vocês. Porque o mundo pertence a quem tem coragem.

E eu acredito que só Deus tem o poder de nos parar.


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