Da costura à autonomia: o projeto que ensina mulheres de Júlio de Castilhos a transformar tecido em independência
Liliane Moreira, idealizadora da Oficina de Costura Sustentável, conta como o reaproveitamento de jeans e outros materiais virou uma ferramenta de acolhimento, geração de renda e autonomia financeira para mulheres em situação de vulnerabilidade, e explica como empresas locais podem ajudar o projeto a chegar a todos os bairros da cidade.
A dependência financeira é, muitas vezes, o que prende uma mulher a uma realidade de violência e vulnerabilidade. Foi olhando para isso que Liliane e uma amiga decidiram agir. Com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), nasceu a Oficina de Costura Sustentável, um projeto gratuito que ensina mulheres a costurar a partir de materiais que seriam descartados.
Na primeira edição, realizada no Centro Social, as alunas passaram quatro meses aprendendo técnicas e modelos, e cada uma saiu com 13 bolsas produzidas.
Agora, o objetivo é levar a oficina aos bairros. Para isso, o projeto precisa de parceiros. Na conversa com a Mídia Raiz, Liliane fala sobre a origem da iniciativa, o que a autonomia financeira muda na vida dessas mulheres e por que apoiar o projeto é um investimento, e não apenas uma doação.
Como nasceu a vontade de criar esse projeto?
Desde o princípio, eu e uma amiga tínhamos vontade de ajudar outras mulheres. Com tantas notícias sobre violência doméstica e vulnerabilidade social, a gente sentia que precisava fazer alguma coisa, mas não sabia exatamente como. Foi então que ela começou a procurar uma forma de viabilizar esse projeto e encontrou a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), que possibilitou que a nossa ideia saísse do papel. Eu entrei com aquilo que sei fazer, que é ensinar costura, e ela com toda a parte necessária para que o projeto pudesse acontecer. A gente percebeu que a dependência financeira pesa muito na vida dessas mulheres. Então pensamos que, através da costura, poderíamos oferecer uma oportunidade de aprendizado e de autonomia financeira. E, principalmente, queremos olhar para essas mulheres sem julgamento, entendendo que muitas vezes existe um desamparo da sociedade. A oficina nasceu desse desejo de oferecer oportunidade, acolhimento e autonomia.
Para uma mulher que depende financeiramente de outra pessoa, aprender uma profissão pode representar muito mais do que conseguir um trabalho. O que a autonomia financeira muda na vida delas?
Nós, da Oficina de Costura Sustentável, acreditamos que a dependência financeira adoece as pessoas e também os lares. Quando uma mulher aprende uma profissão, ela conquista autonomia, podendo se ajudar e ajudar sua família com mais segurança. Mas autonomia financeira não significa apenas dinheiro. Ela também traz autoestima, confiança e segurança em si mesma. Quando uma mulher percebe que é capaz de aprender, produzir e gerar sua própria renda, começa a enxergar novas possibilidades para sua vida. Acredito que muitas vezes esse potencial já está dentro dela. O que falta é um olhar diferente, sem julgamento, de uma mulher para outra, que ajude a despertar essa confiança e fazê-la perceber do que é capaz.
Por que a costura sustentável? Como funcionam as oficinas e o que as alunas aprendem a produzir?
Eu escolhi a costura sustentável porque queria dar a essas mulheres a possibilidade de começar com uma matéria-prima que muitas vezes já existe dentro de casa: uma calça jeans que não é mais usada, um moletom ou até materiais que podem ser doados. A gente consegue transformar aquilo que seria descartado em um novo produto. Na oficina do ano passado, trabalhamos principalmente com o jeans, produzindo bolsas, carteiras, pochetes, aventais, estojos e necessaires. Foram quatro meses de curso, em que cada aluna produziu 13 bolsas, aprendendo diferentes modelos e técnicas. A intenção é que elas não aprendam apenas a costurar, mas que saiam capacitadas para produzir e vender o que fazem, gerando uma renda para si mesmas. Durante a oficina, elas aprenderam a usar a máquina de costura e técnicas básicas, como colocar zíper e montar diferentes peças. Hoje elas têm uma base de costura que permite tanto a produção dos próprios produtos quanto a oportunidade de trabalhar, por exemplo, em uma malharia.
Para que o projeto cresça e atenda mais mulheres gratuitamente, do que vocês precisam hoje?
Hoje, precisamos principalmente de apoio com materiais para que o projeto possa continuar. Eu disponibilizo as máquinas e também o meu tempo gratuitamente para dar as aulas, então precisamos de parceiros que possam contribuir com manta, tecidos, linhas, zíperes, tesouras e outros itens necessários para as oficinas.
No ano passado, realizamos o projeto no Centro Social. Este ano, a ideia é levar a oficina para as sedes das comunidades, indo aos poucos, de bairro em bairro. Se tivéssemos o apoio contínuo das empresas, poderíamos fazer esse projeto durante todo o ano, alcançando mulheres de toda Júlio de Castilhos. Também precisamos de apoio para o transporte das máquinas e, principalmente, de empresas e empreendedores que acreditem no trabalho dessas mulheres e possam ajudar na venda dos produtos. Não precisa ser uma grande compra: comprar uma parte da produção, ajudar a divulgar ou revender esses produtos já faria uma grande diferença. Seria muito importante, ainda, que o grupo de artesãos da cidade pudesse abrir um espaço para essas mulheres exporem seus trabalhos, sem que a mensalidade fosse mais uma dificuldade para elas. Quando uma empresa fornece material ou compra um produto feito por essas mulheres, ela não está apenas ajudando o projeto a continuar. Está incentivando essas mulheres a seguirem produzindo e mostrando que o trabalho delas tem valor.
Que mensagem tu deixa para as empresárias e empresários da cidade?
Eu gostaria de deixar um convite para as empresárias, empresários e empreendedores da nossa cidade: apoiar esse projeto não é simplesmente fazer uma doação. É investir na possibilidade de uma mulher conquistar autonomia, segurança e independência. Muitas mulheres passam por situações de violência doméstica e, muitas vezes, a dependência financeira dificulta que elas consigam mudar essa realidade. Quando ajudamos uma mulher a aprender uma profissão, gerar renda e mostrar o seu trabalho, também estamos ajudando na sua reintegração à sociedade, fazendo com que mulheres que muitas vezes passam despercebidas tenham a oportunidade de serem vistas e valorizadas. Ao mesmo tempo, cuidamos do nosso planeta, reaproveitando materiais que seriam descartados. E quando esses produtos são vendidos e circulam dentro do município, o dinheiro também fica aqui, fortalecendo a economia local. Eu acredito que somos todos responsáveis. Cada empresa, cada empreendedor e cada pessoa pode fazer a sua parte. Quando apoiamos essas mulheres, estamos ajudando a construir uma sociedade mais justa, consciente, sustentável e com mais oportunidades para todos.
Como apoiar a Oficina de Costura Sustentável Doação de materiais:
manta, tecidos, linhas, zíperes, tesouras e outros itens de costura
Transporte: ajuda para levar as máquinas até as sedes comunitárias dos bairros
Compra de produtos: adquirir parte da produção das alunas Divulgação e revenda: expor ou vender as peças no seu negócio
Espaço de exposição: abertura de espaço sem custo de mensalidade para as participantes




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