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A castilhense que transformou a arte em legado

Existem pessoas que deixam marcas sem fazer alarde. Pessoas que dedicam décadas da própria vida a ensinar, incentivar, acolher e acreditar no potencial de crianças e jovens quando, muitas vezes, nem eles próprios conseguem enxergar seus talentos.



Em Júlio de Castilhos, uma dessas pessoas é a professora Lourdinha.

Educadora, incentivadora da leitura, da poesia e do teatro, ela ajudou a formar gerações de castilhenses dentro e fora da sala de aula. Ao longo de sua trajetória, transformou a arte em ferramenta de educação, autoestima, cidadania e inclusão social.


Nos últimos anos, esse trabalho ganhou continuidade através da atuação voluntária no Centro Social Santo Antônio, onde segue compartilhando conhecimento, sensibilidade e oportunidades com crianças e adolescentes da comunidade.


Nesta conversa com a Mídia RAIZ, a professora Lourdinha fala sobre o poder transformador do teatro, a importância da cultura na formação humana e os aprendizados que carrega após uma vida dedicada à educação.

Porque algumas histórias não se medem apenas pelo tempo de trabalho, mas pelas vidas que ajudaram a florescer. Confira: 1. Professora Lourdinha, quando tu olha para a sua trajetória, o que a arte e o teatro ensinaram sobre educar crianças e jovens aqui em Júlio de Castilhos? Acredito na afirmação de G. Khalil Gibran sobre ensino em O Profeta:

“Nenhum homem poderá revelar-vos senão o que está meio adormecido na aurora do nosso entendimento.”

Portanto, cabe ao professor proporcionar aos alunos experiências e vivências para “desenterrar” seus tesouros escondidos. O universo mágico do teatro, que dialoga com todas as artes, contribui significativamente para a formação de crianças e jovens por diversas razões: descoberta e aprimoramento de talentos; melhoria da autoestima e da expressão oral; aquisição de autoconfiança; estímulo à criatividade e à imaginação; cultivo de valores como responsabilidade, comprometimento e respeito na convivência. Além disso, instiga a sensibilização para o encantamento, um olhar poético em relação à vida e novas percepções de mundo, numa dimensão social e mais humana. É muito gratificante saber que muitos alunos não apenas passaram por nós, mas deixaram marcas indeléveis e hoje estão realizados profissionalmente. Muitos atribuem isso, ao menos em parte, às experiências artísticas e teatrais que lhes foram oportunizadas.


2. Tu segue atuando de forma voluntária no Centro Social Santo Antônio. O que esse trabalho representa na sua vida hoje?


Anos mais tarde, recebi um convite da Associação Beneficente Santo Antônio para participar de um projeto da indústria de laticínios Dália que priorizasse a arte.

Montamos então o projeto “Fazendo Arte com Leite Dália”, confeccionando fantoches e cenários com embalagens do referido leite. Criei o roteiro a partir de histórias infantis da literatura brasileira e de poesias. O diretor da indústria assistiu à apresentação, elogiou muito e passou então a doar uma grande quantidade de leite.

Hoje já são nove anos em que atuo como voluntária no Centro Social. Ser voluntária é dedicar tempo e carinho às causas sociais. É uma oportunidade de causar impacto positivo na comunidade, mas exige, muitas vezes, sacrifício na vida pessoal, empatia, inteligência emocional e predisposição para se adaptar a diferentes realidades.

Para mim, é motivo de felicidade poder contribuir para amenizar as mazelas da vida de crianças e adolescentes, compartilhando minhas experiências e conhecimentos através do Projeto Literatura e Teatro em Prosa e Verso. É inestimável e gratificante perceber a evolução deles nas atividades propostas, nas habilidades desenvolvidas, no entusiasmo da participação ativa e também pelo retorno que recebo quando relatam seu excelente desempenho nas escolas, especialmente na apresentação oral de trabalhos. Tornam-se mais autoconfiantes e são elogiados pelos professores.

Também destaco a participação dos grupos de teatro em apresentações na Feira do Livro, em eventos culturais no Museu Vila Rica, na Biblioteca Pública, na APAE e no Lar Recanto do Amanhecer, promovendo a inclusão deles na sociedade, um dos principais objetivos do projeto.


3. Na sua visão, qual é a importância de espaços como o Centro Social Santo Antônio para a comunidade castilhense, especialmente para as crianças e famílias que participam das atividades?


O Centro Social é um espaço muito importante para a comunidade castilhense, pois acolhe, com muito carinho e dedicação, mais de uma centena de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social e econômica. Oferece projetos relevantes em diversas áreas, além de proporcionar uma alimentação nutritiva em cinco refeições diárias. As crianças aprendem a convivência saudável, baseada no respeito, seguem normas de comportamento e sentem-se valorizadas e incluídas na sociedade. Recebem aprendizados que podem inclusive contribuir para a produção de produtos futuramente e gerar remuneração. Além disso, as famílias — especialmente as mães — participam de projetos, inclusive das atividades de teatro.


4. A arte muitas vezes revela talentos, melhora a autoestima e ajuda as crianças a se expressarem. Tu lembra de algum momento marcante em que percebeu o teatro ou as atividades artísticas transformando alguém?


Um dos muitos momentos marcantes aconteceu durante um ensaio de recital poético que envolvia expressão corporal e dança. Uma das alunas demonstrava dificuldade na recitação por causa da timidez e da insegurança. Após um trabalho de fluência verbal — método intuitivo que desenvolvi — ela surpreendeu a todos com seu excelente desempenho. Anos mais tarde, recebi, com emoção e orgulho, o convite para sua formatura em Artes Cênicas e também para assistir ao seu trabalho de conclusão de curso: um monólogo em que ela era a protagonista. Mais recentemente, recebo textos literários excelentes do filho de uma ex-aluna, que me agradece pelo incentivo à leitura e ao gosto pela poesia na época em que lecionei no Vicente Dutra. Então, o legado está atravessando gerações, e isso me deixa imensamente feliz.


5. Se tu pudesse deixar uma mensagem para Júlio de Castilhos sobre educação, cultura e cuidado com as novas gerações, qual seria?


Como mensagem final, ressalto a importância da educação e da cultura no cuidado com as novas gerações. Educação é transmissão de saberes, mas com senso crítico, alicerçada em valores humanos, para capacitar os educandos a serem agentes de transformação da sociedade. A cultura, não apenas no sentido da erudição, mas como vivência de tudo aquilo que é produzido pelo ser humano — suas tradições, invenções e manifestações artísticas. Que crianças e jovens estejam preparados para se sentirem pertencentes ao lugar onde vivem, com espírito de coletividade, valorizando e preservando seu patrimônio cultural, artístico, material e imaterial.


Que saibam exercer sua cidadania com voz e ação, não apenas para exigir seus direitos, mas também para contribuir com seus talentos e habilidades, produzindo cultura, construindo memórias e definindo sua identidade. Esse será um valioso legado para as gerações futuras.

“Seja a mudança que você quer ver no mundo.”


Essa frase, atribuída a Mahatma Gandhi, sintetiza um dos meus propósitos de vida.





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