Aquarela Aporreada: quando o verso pinta o Pampa
- Rosaura Bastos Bellinaso

- 28 de jul.
- 5 min de leitura
Atualizado: 30 de jul.

Há canções que contam uma história. Outras fazem nascer uma paisagem inteira diante dos olhos. Em “Aquarela Aporreada”, Guto Gonzalez não precisa de pincéis para pintar o Rio Grande. As cores aparecem no candeeiro aceso, no carreteiro, no tropeiro, no laço e nas marcas deixadas por uma vida de lida.
Cada verso acrescenta um novo tom a essa tela, feita da beleza do pampa, mas também da sua dureza. A composição nasceu durante um festival realizado em Júlio de Castilhos, A Convenção Nativista. O tema era “Estampa Gaúcha”, e os participantes tinham apenas 24 horas para criar letra e música. Mas aquilo que Guto colocou no papel não surgiu em um único dia.
Veio de uma vida inteira entre o campo, as histórias dos antigos capatazes, as práticas herdadas de outras gerações e as andanças pelo Rio Grande, pelo Uruguai e pela Argentina. Guto se define mais como verseador do que como poeta. Ainda assim, ao falar sobre a força das metáforas, deixa uma das frases que melhor traduzem a essência desta entrevista:
“Feliz é o poeta que consegue ser entendido por meio de suas metáforas.”
Acredito que a força de “Aquarela Aporreada” venha também desta fala. Afinal, mesmo quando descreve a realidade de forma direta, a canção transforma a lida em imagem, a memória em cor e o pampa em uma grande pintura cantada.
Nesta entrevista à Mídia Raiz, Guto Gonzalez conta como nasceu a composição, revela quais cenas vieram das suas próprias vivências, fala sobre a realidade não romantizada do campo e reconhece a imagem que hoje acrescentaria à canção: a mulher gaúcha. Uma conversa sobre música, memória e pertencimento. Sobre tudo aquilo que permanece vivo quando alguém encontra palavras para pintar as próprias raízes. Confira:
Em “Aquarela Aporreada”, tu pinta o Rio Grande por meio de imagens muito específicas, como o candeeiro, o carreteiro, o quero-quero e o laço. Em que momento tu percebeu que esses detalhes do cotidiano também eram poesia?
Guto: “Aquarela Aporreada” nasceu em um festival aqui de Júlio de Castilhos, no qual recebemos o tema “Estampa Gaúcha”. Nós tínhamos 24 horas para fazer a letra e a música. Durante algum tempo, fiquei pensando sobre o que me remetia a uma estampa gaúcha. Foi então que começaram a brotar os símbolos do Rio Grande. Para mim, esses símbolos envolvem tudo o que encontramos de sul a norte do Estado: o carreteiro, o tropeiro, o tomador de mate e tantos outros elementos da pampa.
Eu também estendi esse olhar ao Uruguai e à Argentina, pensando no gaúcho como um todo. A canção reúne símbolos que possuem muito significado para mim, a partir de tudo o que já conheci em minhas andanças pelo nosso Estado e fora dele. Fui colocando essas imagens nos versos. Como eram várias tintas soltas formando uma mesma pintura, ao final surgiu o título “Aquarela Aporreada”.
A música passa a sensação de que cada verso foi vivido. Quantas dessas cenas fazem parte das tuas próprias lembranças e quantas nasceram da observação de outras pessoas e histórias do campo?
Guto: São cenas que eu realmente vivi no campo. Trabalhei a vida inteira na atividade campeira e tive uma oportunidade que considero única. Quando eu tinha aproximadamente dez ou onze anos, fui praticamente criado por quatro capatazes de campo. Naquela época, eles já eram senhores com 60, 70 e até 80 anos de idade. Por meio deles, tive a oportunidade de conhecer um campo que vinha praticamente do século passado, com lidas semelhantes às realizadas nas décadas de 1940 e 1950.
Aprendi essas tarefas trabalhando ao lado deles. Eles executavam as lidas da mesma maneira que haviam aprendido com as gerações anteriores. Assim, pude conhecer práticas e histórias muito mais antigas do que eu. Senti muito forte essa identidade campeira, especialmente de um tempo em que o nosso pago ainda era muito mais campo. Depois vieram também as minhas andanças pelo Uruguai e pela Argentina.
Por isso, a canção reúne símbolos dessas três pátrias, todos acolherados dentro da mesma composição.
A canção fala de um Rio Grande forte, bonito e, ao mesmo tempo, duro, mostrando desde a beleza do amanhecer até o sangue do trabalho campeiro. Era importante apresentar essa realidade sem romantizar a vida no campo?
Guto: A poesia geralmente nasce da metáfora. Existe um verso que diz: “Corta que corta, e a madeira chora lágrimas de cavacos pelo chão”. Esse verso é de Miguel Bica, em memória. O cavaco não é uma lágrima, mas a imagem foi construída de uma maneira que todos conseguem compreender. Feliz é o poeta que consegue ser entendido por meio de suas metáforas. Eu, porém, considero-me mais um versiador. Trabalho muito mais com a lida de campo em si do que com reflexões ou imagens criadas sobre ela.
Por isso, em “Aquarela Aporreada”, aparece de forma muito explícita esse jeito forte e mais bruto. A vida no campo não é romantizada no dia a dia. É uma lida difícil e judiada.
Existe o sol, a geada, o mormaço, a chuva e as enchentes, como estamos vendo atualmente. O homem do campo acaba se tornando mais rude nesse sentido, porque a própria lida é rude. Eu apenas escrevo sobre a maneira como o homem do campo realmente vive.
Se tu pudesse acrescentar hoje mais um verso à “Aquarela Aporreada”, existe alguma imagem, costume ou lembrança do Rio Grande atual que sentiria falta de deixar registrada?
Guto: Eu acrescentaria mais um verso ou uma imagem sobre a mulher gaúcha. Cantei muito o campeiro e a lida bruta do campo, mas não falei sobre a mulher. Eu deveria ter falado sobre ela. Tirando essa ausência, acredito que consegui reunir praticamente todos os grandes símbolos presentes dentro da nossa cultura. Para mim, a canção só não é perfeita porque não mencionei a mulher gaúcha.
Na Mídia Raiz, acreditamos que preservar a memória também é uma forma de cuidar da identidade de uma comunidade. O que tu espera que um jovem gaúcho sinta ao ouvir “Aquarela Aporreada” pela primeira vez?
Guto: Nas nossas andanças, quando cantamos “Aquarela Aporreada”, a música sempre causa admiração, graças a Deus. As pessoas ficam atentas à história e à mensagem que ela traz. Considero que é uma canção completa, tanto na letra quanto na melodia e nos arranjos. É difícil conseguir reunir essas três partes com a mesma força em uma composição. Quando isso acontece, a música pode alcançar um resultado maior do que o comum.
O que desejo para os jovens e para todas as pessoas que escutarem essa canção pela primeira vez é que ela desperte curiosidade. Curiosidade para descobrirem de onde são, de onde vieram e o significado de cada verso colocado ali. Que procurem compreender o que esses símbolos têm a ver com os seus antepassados, porque, de alguma forma, todos nós viemos do campo. Espero que a música possa acrescentar algo à alma das pessoas. Que elas se agradem, escutem e degustem essa marca que fiz com muito coração.















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