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O último Tronco Missioneiro descansou.


Hoje o Rio Grande se despede de Pedro Ortaça. O último Tronco Missioneiro.

E junto com a notícia da partida dele, me veio uma lembrança muito viva da infância.

Eu devia ter uns 6 anos de idade. Não lembro se era uma marcação ou um aniversário na Fazenda Rincão dos Pinheiros, do amigo da família Clemar Obregon. O que eu lembro é de ver Pedro Ortaça tocando enquanto a gente, criança, ficava ali por perto, admirando tudo sem entender direito a dimensão do que estava vivendo.


Mas teve uma coisa que marcou: as fitas. A gente ganhou fitas dele e correu pedir autógrafo. Hoje parece simples. Mas naquela época era assim que a música chegava até nós. Não existia Spotify. Não existia YouTube. Não existia playlist. Existiam fitas cassete guardadas com carinho. A gente rebobinava com caneta. Decorava as músicas ouvindo dezenas de vezes. Emprestava para amigos. Levava em viagens. Guardava como quem guarda um pedaço da própria vida. E pensando bem, aquele tempo era muito raiz.


As famílias se reuniam. As crianças brincavam juntas.Os músicos estavam ali, ao alcance de um abraço. As histórias eram contadas olhando nos olhos.E a cultura passava de geração em geração sem precisar de algoritmo. E é por isso que a partida de Pedro Ortaça mexa tanto. Porque ele não levou apenas música. Levou identidade.

Pedro ajudou a contar a história das Missões através da arte, da poesia, da memória e da valorização das nossas raízes. Ao lado de Noel Guarany, Cenair Maicá e Jayme Caetano Braun, formou os Troncos Missioneiros, artistas que ajudaram a construir uma das expressões culturais mais fortes do Rio Grande do Sul. Hoje a gente perde um artista.


Mas a cultura gaúcha permanece com uma herança impossível de apagar.

E enquanto existir alguém lembrando de uma música, de uma fita guardada numa gaveta, de um baile, de uma festa no interior ou de uma noite ouvindo violão missioneiro...


Pedro Ortaça continua vivo.

Obrigada por ter ajudado tanta gente a lembrar de onde veio.

E obrigada por nos lembrar que, antes de tudo, o Rio Grande também é memória, pertencimento e raiz.

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